O Mundo Inteiro Estava De Olho, Mas O Que Eles Viram?

O Mundo Inteiro Estava De Olho, Mas O Que Eles Viram?

Quando você para e pensa sobre o assunto, é difícil imaginar outro país que tenha experimentado tantas coisas diferentes – pelo menos em tempos de paz – quanto o Brasil nos últimos quatro anos. Em meio a três eventos internacionais, uma eleição disputadíssima e a completa quebra do sistema político do país, os brasileiros viveram de tudo no passado recente. E agora que tudo terminou, o sentimento entre nós é de que nada será como era antes.

Apesar de o Brasil ser o quinto maior país do mundo e ter a quinta maior população, não era normal ver notícias sobre o país ao redor do planeta. O turismo internacional é minúsculo fora do eixo Rio-São Paulo, com um número de turistas em todo o Brasil pouca coisa maior do que apenas Cancun recebe por temporada. A ideia de ter três competições percorrendo o país – e principalmente o Rio de Janeiro – era algo muito diferente para os brasileiros. Por isso, fizemos o melhor para deixar uma boa impressão.

Em meio aos eventos – a saber: a Copa das Confederações de 2013, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada, no último mês de agosto –, a sociedade brasileira, como um todo, passou por mudanças profundas. Em 2007 e 2009, quando a Fifa e o COI escolheram o país como sede das duas principais competições esportivas do planeta, o Brasil estava no auge. A economia vivia o seu melhor momento na história, com os índices de pobreza e fome diminuindo e as taxas de emprego batendo recordes, acima de 92% por sete anos seguidos. Enquanto o resto do mundo sofria com uma crise econômica que parecia quebrar o capitalismo de forma geral, os brasileiros se sentiam seguros. E orgulhosos, também, agora que receberíamos o nosso amado futebol, assim como a Olimpíada, com a chance de evoluir em outros esportes.

Isso foi algo realmente único. Antes do Rio, apenas três vezes o Mundial e os Jogos Olímpicos foram realizados em sequência no mesmo país. A Cidade do México sediou os Jogos em 1968, com o México recebendo a Copa de 1970. Depois, Munique e a Alemanha tiveram a Olimpíada e a Copa em 1972 e 1974. Mas as tristes cenas do atentado contra atletas de Israel nas Olimpíadas bávaras fizeram com que essa combinação nunca mais acontecesse – os Estados Unidos sediaram a Copa de 1994, e Atlanta teve a Olimpíada dois anos depois, mas a cidade não recebeu jogos do Mundial, e o futebol não fazia parte do cenário americano na época.

O Brasil era o país da moda. Ou era o que pensávamos. Pouco antes da Copa das Confederações, uma competição que serviria de teste ao Mundial, a economia brasileira começou a ter problemas. E depois que protestos contra o aumento dos preços das passagens de ônibus tomaram conta das maiores cidades, a sociedade parecia prestes a entrar em colapso. Os protestos aumentaram, perderam controle e foco, passando a ser ‘contra tudo o que está aí’, criticando fortemente os partidos políticos. Rio, Recife, Salvador e Belo Horizonte tiveram manifestações gigantes em meio aos jogos, contra todos os tipos de governo, e cidades como Porto Alegre e São Paulo viram protestos anárquicos em conflitos diários com a polícia.

Para os visitantes estrangeiros, tudo parecia muito diferente, e possivelmente assustador. Havia um medo generalizado do que poderia acontecer durante a Copa, mas não se viu nada assim. A Copa teve festas gigantescas em todas as cidades-sede, com turistas e brasileiros se divertindo ao máximo. Foi a primeira vez, em muitos lugares, que brasileiros tinham a chance de conviver com pessoas de outros países, e mostramos o nosso melhor. Tudo deu muito, muito certo – com exceção de uma certa semifinal contra a Alemanha. As coisas pareciam estar no caminho certo.

Mas aí vieram as eleições presidenciais e estaduais. Dilma Rousseff (PT) se reelegeu para um segundo mandato, o quarto seguido do seu partido, mas a disputa foi dura contra Aécio Neves (PSDB): o resultado do segundo turno foi de 51-49% para Dilma. E a oposição deixou claro que não facilitaria a vida da presidente.

Para tentar resolver isso, Dilma e o PT fizeram alianças com diversos partidos pequenos, dando poder ao PMDB do vice Michel Temer. O PMDB, no entanto, é conhecido pela sua falta de unidade. Também fazia parte da oposição, com deputados lutando para abrir um processo de impeachment contra a presidente assim que começou seu novo mandato.

Um deles conseguiu. Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, era acusado de ter contas não declaradas na Suíça, abastecidas por dinheiro do processo de corrupção que tomou conta da Petrobras. Políticos de todos os partidos estavam envolvidos no esquema, e Cunha usou isso para se proteger, decidindo que, se fosse cair, cairia atirando.

Deu certo. Em abril, a Câmara abriu o processo de impeachment contra Dilma, a ser votado pelo Senado, e não mais do que de repente o Brasil tinha um novo presidente e um novo partido no poder após 14 anos. Isso tudo a poucos meses do início da Olimpíada. Michel Temer, o novo comandante, sofre com baixa popularidade, e por isso mesmo fez um brevíssimo discurso, de apenas 10 palavras, para abrir os Jogos no Rio, sendo vaiado por todo o Maracanã.

Mas a Olimpíada veio, aconteceu e, mais uma vez, os brasileiros fizeram tudo ser divertido. Claro que não foi tão suave quanto a Copa – afinal, o futebol é parte crucial da cultura nacional, ao contrário dos demais esportes olímpicos –, mas tudo funcionou. A história foi feita nas pistas, campos e arenas. Tudo isso enquanto o Senado confirmava o impeachment de Dilma, tirando ela do cargo de forma definitiva.

E, do nada, tudo terminou. Tudo. Nada de novos turistas, nada de Copa ou Olimpíada, nada de novas estrelas. A política segue fazendo parte do cenário, com protestos semanais em várias cidades. Mas o Brasil é, de fato, um país diferente hoje do que era em junho de 2013. Melhor ou pior? Só o tempo dirá.

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