Novo Governo, Nova Política

Novo Governo, Nova Política

Cento e vinte dias após o impeachment de Dilma Rousseff, Chico Luz analisa o seu sucessor, Michel Temer, e questiona que tipo de Brasil ele está criando. 

 

Lá se vão quatro meses desde que a Câmara dos Deputados aceitou o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, e o vice-presidente Michel Temer assumiu o posto de presidente interino do Brasil. O que mudou no país nestes 120 dias?

Muito, na verdade. Mas nada demais.

Talvez a grande mudança no Brasil tenha acontecido, na verdade, na sua política. Temer foi eleito vice-presidente de Dilma em 2010 e 2014. Apesar disso, assim que ela deixou o Planalto _ em um processo que, muito provavelmente, vai ser confirmado pelo STF em agosto _, Temer mudou ou encerrou alguns dos programas-símbolo do governo do PT desde 2002, com Lula. Pelo contrário: ele escolheu para o seu governo políticos de partidos derrotados nas últimas quatro eleições majoritárias.

Difícil de entender, não é? Um vice-presidente apostar na oposição para montar o seu governo? Pois foi precisamente isso que aconteceu.

Vamos tomar como exemplo as Relações Exteriores. Desde Lula, o Brasil foi reconhecido mundialmente por buscar a abertura de negócios com mercados menos cotados, deixando de lado os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental como principais (ou únicos) parceiros. Com isso, a relação com a China cresceu exponencialmente, assim como com países da África e do continente americano.

Temer, por sua vez, voltou sua atenção aos velhos aliados. E, para mostrar bem as suas escolhas, chamou como ministro das Relações Exteriores ninguém menos do que José Serra. Serra, do PSDB, foi um dos maiores opositores do governo Dilma (governo do qual Temer fazia parte, é bom lembrar) _ caramba, ele concorreu contra Dilma pela presidência em 2010, e antes disso contra Lula, em 2002. Agora, é ele, Serra, quem está à cargo de todas as relações diplomáticas do Brasil, mesmo que Dilma possa, na teoria, voltar à presidência, se o STF julgá-la inocente das pedaladas fiscais.

Claro que não para por aí. Dilma e o PT têm se visto, e se vendido, como um governo progressista, que cuida das pessoas com necessidades na disputa contra os interesses econômicos (não foi o que se viu na prática, mas tudo bem). Temer, ao contrário, não tem problemas em admitir que o seu governo terá de cortar na carne (dos pobres, é claro) para resolver a crise econômica que tem assolado o Brasil há 16 meses. A sua equipe econômica, tratada pelos mercados internacionais como muito competenete, prometeu mudar a Previdência _ o que obrigaria os brasileiros a trabalhar por mais tempo antes da aposentadoria _, as leis trabalhistas (com o presidente da Confederação Nacional das Indústrias reclamando da atual semana de trabalho de 44 horas, pedindo que seja permitido até 80 horas por semana de trabalho. Mais tarde, ele disse ter errado os números, e na verdade defendia apenas 60 horas por semana), e até mesmo cortes na educação e na saúdes, hoje universais.

Enquanto isso, nada realmente mudou. Como o Brasil terá eleições municipais em outubro, para todas as mais de 5,6 mil cidades do país, qualquer grande alteração _ especialmente mudanças impopulares _ seria ruim para as pretensões dos partidos envolvidos. É por isso que, até agora, todas essas promessas têm sido deixadas para entrevistas e pronunciamentos, mas sem ser colocadas em prática.

O Brasil vai mudar? Os brasileiros vão realmente sofrer essas drásticas mudanças, perdendo seus direitos à saúde e à educação gratuita, por exemplo? É difícil dizer. Temer é um político experiente, que sabe que, mesmo que a sua super equipe econômica diga que essas são alterações necessárias, politicamente elas fazem pouco sentido. No Brasil, política e poder são lei, e tudo trabalha para manter o poder pela política.

No final, tudo vai esperar até outubro. Depois disso, nem Temer sabe.

President sad01 600

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